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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Livros Entre Linhas: A Terra Inteira e o Céu Infinito


Nome do Mundo: A Terra Inteira e o Céu Infinito or A Tale For The Time Being.
Único em Seu Universo.
Dimensão: 462 páginas. 
Criadora: Ruth Ozeki.
Data de Nascimento: 
BRA:  2014 / US: 2013.
Trouxe aos Terráqueos Brasileiros: Casa da Palavra.
Onde Obter: Saraiva - Submarino -Americanas - Livraria Cultura - Estante Virtual
Relatório Completo: Skoob or Goodreads.
Sinopse: A Terra Inteira e O Céu Infinito - O que acontece quando um diário perdida encontra o leitor certo? Numa remota ilha do Canadá, a escritora Ruth cata mariscos com o marido na praia quando se depara com um saco plástico coberto de cracas que envolve uma lancheira da Hello Kitty. Dentro, encontra um livro de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, e se surpreende ao descobrir que o miolo, na verdade, é o diário de uma menina japonesa, Nao. A sacola misteriosa, segundo os rumores dos habitantes, é mais um dos destroços do último tsunami que devastou o Japão e foi levado pelas correntezas até a ilha. Desde então, Ruth é tragada pela história do diário de Nao, uma menina que, para escapar de uma realidade de sofrimento – de bullying dos colegas e de um pai desempregado e suicida –, resolve passar seus últimos dias lendo as cartas do bisavô, um falecido piloto camicase da Segunda Guerra Mundial, e contando sobre a vida da avó, uma monja budista de 104 anos. O que Ruth não esperava era que o diário iria levá-la a uma viagem onde ela e Nao podem finalmente se encontrar fora do tempo e do espaço.

Muito bem, mochileiros, (faria mais sentido se eu chamasse vocês de leitores, mas soa um tanto formal, não acham, leitores?). Esse é um daqueles livros que me envolveu tanto, que ainda estou tentando descobrir como me desprender, ao menos parcialmente, para contar a vocês. Não quero nem calcular minhas chances de sucesso, but here we go \O/


Acho que é importante ter objetivos claros na vida, não acha? Principalmente se não te resta muita coisa. Porque, se você não tiver objetivos claros, o seu tempo pode se esgotar e, quando o dia chegar, você vai se pegar de pé no parapeito de um prédio alto, ou sentada na cama com um frasco de comprimidos na mãe, pensando, Merda! Dei mole. Se ao menos tivesse estabelecido objetivos claros para mim!”.

MAS ANTES, mesmo que eu não lhe convença a comprá-lo, saiba que as páginas desse livro possuem um cheiro MARAVILHOSO de chá, então vale a pena tê-lo só para ficar cheirando. Afinal, já existe tanta coisa pior para se cheirar (interpretações à parte!), que eu prefiro que você, caro leitor, não consiga desgrudar a cara desse tipo de folha. (Oscar de pior melhor piada literária aqui, por favor).



Você tem um pouco de maluquice. É o preço que se paga pela imaginação fértil. Esse é o seu superpoder. O acesso ao mundo do sonho. É uma coisa boa, não ruim”.

Pois bem, a premissa do livro me conquistou de primeira, afinal temos: uma autora japonesa que contará sobre uma personagem japonesa = fator culturas diferentes, de uma forma bem feita vale ressaltar, que tanto amo; uma personagem escritora que tem passado pelo fatídico problema de bloqueio criativo = Identificação total por minha parte (choro é livre); e as vidas de duas pessoas diferentes narradas paralelamente, que uma hora se entrecruzam de alguma forma, e a graça toda mora aqui.


O passado é esquisito. Quer dizer, ele existe de verdade? A sensação é de que existe, mas onde ele está? E se existiu mesmo, mas não agora, então onde foi parar?

Vamos começar pela escritora, Ruth, e se você leu a box de informação e se não parabéns também, É O MESMO NOME DA AUTORA!, OMG. Então você já pode prever o que isso significa para história. Ruth e seu marido estão na casa dos 40 anos e moram em uma pequena ilha do Canadá. Seu marido é uma espécie de pesquisador/especialista ambiental/algo do gênero e como a biodiversidade desta ilha é bem farta, tem sempre trabalho para fazer. Já Ruth, depois de ter trabalhado em jornais e publicado romances, está empacada em um novo projeto que é contar sua história de vida


Tenho me sentido mais atraído pela literatura hoje do que antes, não tanto por alguma obra em particular, mas pela ideia da literatura em si - o esforço heroico e a nobreza do nosso desejo humano de produzir a beleza a partir das nossas mentes”.

E, em meio a assolação desse novo dilema, Ruth um dia encontrou uma lancheira da Hello Kitty enquanto andava pela praia. Seu conteúdo? (Um McLanche feliz). Um diário de uma garota japonesa de 16 anos embrulhado na capa do livro Em Busca do Tempo Perdido do Marcel Proust (e, tanto quanto eu, você provavelmente deveria ler este livro). Por quanto tempo o diário esteve no mar? Quando foi escrito? Quem é a autora e, principalmente, como ela está agora? Ruth também quis saber e foi atrás das respostas.


É estranho pensar em como o tempo pode contribuir para você se sentir mais próximo ou distante das pessoas”.

E agora, do outro lado do Planeta (mas em qual ponto do passado?), vive Nao, a peculiar garota japonesa que, no começo de seu relato pessoal, tinha 16 anos e era dona de um blog com o melhor título ever "The Future is NAO". E se você googlear isso, verá um robô. 
ENFIM, Nao morava nos E.U.A desde pequena e tinha uma vida confortável e feliz ao estilo americano. Até que seu pai foi a falência e, junto com sua mãe, tiveram de retornar ao Japão. E em meio a turbulência de sua nova vida, Nao conhece sua bisavó: uma monja budista de 104 anos que a convida a passar um tempo no templo budista.


É estranho pensar em como o tempo pode contribuir para você se sentir mais próximo ou distante das pessoas”.

Eu adorei conhecer um pouco mais sobre o universo budista e é incrível o quão pouco conhecemos sobre outros países e culturas, inclusive a nossa, me arrisco dizer. E depois de passar por loucuras terríveis, desde ter um pai suicida a até iniciar-se na prostituição, essa experiência foi a rehab que Nao precisava.
Pois bem, não sabemos ao certo quantos anos tem a Nao que escreveu sobre a Nao de 16 anos que nos é apresentada, mas hey, é isso que compõe a atmosfera  singular e incrível do livro.


As cerejeiras aqui da base já floresceram e perderam suas flores, e eu continuo esperando para ter o mesmo destino”.

AGORA, o que dizer da prosa de Ozeki? Eu adorei a maneira como que ela está sempre interagindo com o leitor, principalmente nos capítulos de Nao, de maneira direta. Seja perguntas para te fazem revirar suas lembranças próprias ou uma "receita de meditação para leigos". E é uma escrita tão reconfortante quanto o cheiro do chá que permeia suas páginas. Ela sabe tanto manter segredos de você e criar dúvidas a respeito dos porquês dos detalhes da trama, quanto descrever contextos e pessoas. Isso me fez importar com os personagens, característica essencial quando teu livro trata sobre pessoas e seus relacionamentos, (seja consigo mesmo, familiar, ou até em relação ao passado, por que não?).  E algo que me impressionou muito mesmo sobre a capacidade da autora de fazer "links temporais" foi que a cada revelação sobre determinado personagem, me fez encarar toda situação passada dele de maneira diferente, algo que muitas vezes apenas a releitura nos proporciona.


Coisas faltando a deixava perturbada. Etiquetas de preço faltando. Lembranças faltando. Pedaços da sua vida faltando”.



Minha única ressalva em relação ao livro é a tentativa da autora de adicionar um certo elemento sobrenatural que achei não combinar com a proposta do livro como um todo. Não gosto de categorizar os livros como "realidade ou fantasia", pois creio que a Literatura é muito mais bizarra e complexa que isso. Mas, até o final do livro, a autora havia deixado certas dúvidas sobre a veracidade de alguns eventos, o que é ótimo para instigar o leitor a refletir mesmo depois de virar a última página. Contudo, a maneira como ela encerrou esse tópico me fez fechar o livro e simplesmente soltar um "Ah, então é isso?". Mas nada que tirou o prazer de ter conhecido essa história e viver tudo aquilo que ela me trouxe.


Escrever tinha a ver com imortalidade. Derrotar a própria morte ou, pelo menos conseguir evitá-la”.

Tenho de dizer o livro trata de assuntos como suicídio, prostituição e bullying japonês (que é tão absurdo quanto cruel), narrados em primeira pessoa por alguém que passou/está passando por isso. Então, é um livro que contém algumas partes bem densas, e ao meu ver foram bem trabalhadas e desenvolvidas, o que demostra a habilidade da autora de lidar com temas pesados. Outro detalhe que achei interessantíssimo é a quantidade de japonês que você pode aprender lendo esse livro! Quase toda página apresenta uma nota de rodapé com as traduções, e algumas possuem diálogos inteiros! Um último detalhes curioso: as partes da Ruth são narradas em terceira pessoa e a Nao sofre de paralisia do sono (se tiver coragem, jogue no google), E EU TAMBÉM, CHOREMOS.


Pense bem. De onde é que as palavras vêm? Elas vêm dos mortos. Nós as herdamos. Tomamos emprestadas. Fazemos uso delas por um tempo a fim de trazer os mortos à vida”.




PS: Ambas as capas original e brasileira são DESLUMBRANTES.


A ficção tinha seu próprio tempo e sua própria lógica. E ai estava o seu grande poder”.


E, como nota, nada mais justo do que lancheiras da Hello Kitty! Deixo aqui meu 4. 5/5 e uma ordem para que você, mochileirinho interessado, não deixe de ler, afinal , The future is Nao.




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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Livros Entre Linhas: Garota, Traduzida


Nome do Mundo: Garota Traduzida or Girl in Translation.
Único em Seu Universo.
Dimensão: 235 páginas. 
Criadora: Jean Kwok.
Data de Nascimento: 
BRA:  2011 / US: 2010 
Trouxe aos Terráqueos Brasileiros: Suma das Letras
Onde Obter: Saraiva - Submarino -  Americanas
Relatório Completo: Skoob
Sinopse: Quando Kimberly Chang e sua mãe, emigrantes de Hong Kong, se estabelecem numa área pobre do Brooklyn, tem início uma árdua dupla jornada para a menina de 11 anos. De dia, ela luta na escola contra o seu quase total desconhecimento do inglês, superando o preconceito do professor e revelando-se uma aluna determinada em aprender. À noite, ao lado da mãe, trabalha duro numa fábrica de tecidos, desafiando a incredulidade de colegas de escola, confiantes de que "trabalho infantil não existe nos Estados Unidos". Dia após dia, Kimberly lida em silêncio com verdades dolorosas e uma vida de privações. Num apartamento imundo, frio e infestado de ratos, a menina encara um futuro incerto, cujo peso recai sobre seus ombros, em função da deterioração da saúde de sua mãe. Kimberly ainda nutre um amor secreto por um menino que trabalha na casa de máquinas da fábrica na qual trabalha. Sua imaginação, criatividade e capacidade de amar são suas únicas armas para encontrar algum conforto e perspectivas. O livro Garota, traduzida é uma história inspirada na vida da autora, que saiu muito jovem de Hong Kong para viver nos Estados Unidos, mas fala também sobre a trajetória de milhares de imigrantes, capturados entre a pressão para vencerem no Primeiro Mundo, suas obrigações para com a família e seus sonhos particulares.


Muito bem, mochileiros. Eu ando um pouco cansada de leituras convencionais e como estava em uma vibe de intercâmbios e culturas diferentes, a sinopse desse livro me cativou de tal maneira, que antes de eu perceber, já estava a espera dos Correios passar e me entregar este bebê. (Afinal, bebês vêm no Sedex, e não da cegonha).

Esse livro entrou para minha lista de favoritos da vida, e eu COM TODA A CERTEZA voltarei a relê-lo quando JO tiver indo morar na Ilha da Esmeralda ~~tossing the hair. Certo, sonhos a parte, vou apresentar-lhes Kimberly, uma chinesa que deu um novo significado à expressão "lutar com unhas e dentes".

Kimberly morava na China, tinha 11 anos, era a melhor aluna da sua escola e vivia muito bem com sua mãe, apesar da saudade que sentia do pai falecido. (Eu iria escrever "morrido", mas esta palavra me define melhor). Mas então, sua mãe um dia lhe diz que fez um acordo com uma tia que vivia na terra do tio Sam e agora estão oficialmente se mudando para New York. Kim não sabe ao certo como comemorar. Fogos de artifício ou lágrimas? Mas isso apenas seu novo lar poderá lhe dizer.


Surgiu então um comercial de sopa de letrinhas. O conceito da sopa me fascinou, como acontecia com todas as coisas que envolviam letras

E eis sua resposta: Pessoas falando uma língua que ela não conhece; Um apartamento pequeno, sujo e cercado por baratas; uma escola onde todos são detestáveis; e só para acompanhar, mesmo sendo criança, Kim devia trabalhar em uma fábrica de tecidos para ajudar a sua mãe a pagar a dívida com a irmã. E digamos que essa tia não é lá a dos sonhos de alguém. Suas notas 10 agora se transformam em um mar vermelho, simplesmente por ela NÃO conseguir ler as provas. Sua mãe trabalha mais de 12 horas por dia. As noites são frias demais para as poucas cobertas aguentarem e a comida nem sempre sacia a fome.  

Porém, apesar da lista de infelicidades que os E.U.A trouxe para Kim ser imensa, uma alegria foi conhecer Matt, um garoto também chinês e que trabalha na fábrica junto a ela. (E aqui é a parte que vocês acham que preveem o que vai acontecer


Você pode estar mais apaixonada por uma pessoa que tem em sua mente do que pela pessoa que vê todos os dias

Ao longo de toda narrativa, nós acompanhamos o desenvolvimento de Kim, tanto acadêmicamente quanto como pessoa. Sua luta para aprender inglês (identificações livre). O constante bullying vindo inclusive de professores. E o que mais foi impactante para mim: seu amor pela sua mãe e pelos estudos e como isso a fez dedicar todas as horas livres para esforçar-se ao máximo e conseguir uma melhor qualidade de vida para sua família-de-uma-só. Histórias assim são umas das que mais mexem comigo, pois é a batalha diária de uma pessoa que dia após dia procura, através do conhecimento, um futuro melhor <o choro é livre>.

Um ponto interessante sobre os bastidores do livro é que a autora também é chinesa e foi  para os E.U.A ainda criança, ou seja, o livro é um pouco auto biográfico! Fato facilmente sentido devido ao detalhismo nas ambientações  e situações descritas. É como ler algo que apenas quem viveu saberia como descrever em palavras.
Particularmente, um detalhe que mais gostei no livro foi os choques entre as culturas chinesa e a americana. Eu sou bem maníaca quando o assunto é culturas diferentes, suas peculiaridades e contrastes, e para mim foi um prato cheio e com direito de repetir!


Jamais vou querer amar alguém assim, [...] amar tanto que não sobre espaço para mim mesma, amar tanto que não consiga sobreviver se ele me deixar

AGORA, O FINAL! Sabe a expressão "novela mexicana" <A URSUPADOORA TARANTANTAN ESPERANDO POR TU AMOR, parei>? Então, foi um tanto forçado e, sinceramente, desnecessário. Mas não desqualificou o restante do livro e o encerrou com um "ponto final" um pouco particular. Curiosos? Eu espero, hehe. 
PS: Aqui segue um documentário/entrevista, aonde a autora conta um pouco mais sobre sua infância. Legendas apenas em inglês.


Nada melhor que CINCO bandeiras da China para representar o quanto eu quero que vocês leiam! Já falei que virou um favorito? Pois virou um favorito.


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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Livros Entre Linhas: Por Que Indiana, João?



Nome do Mundo: Por Que Indiana, João?
Único em Seu Universo.
Dimensão: 208 páginas. 
Criador: Danilo Leonardi
Data de Nascimento: 
BRA: 2014.
Trouxe aos Terráqueos Brasileiros: Giz Editorial.
Onde Obter: Saraiva - Livraria Cultura
Relatório Completo: Skoob.
Sinopse: Você pode pensar que, aos quinze anos, João já deveria estar acostumado com provocações, apelidos e humilhações. Afinal, ele é um típico adolescente deslocado e tímido. Alvo perfeito para a ira dos valentões e para o desprezo das garotas. Mas sua vida muda completamente quando reage a um ataque de seu maior algoz. O golpe de sorte que derruba o valentão é gravado e vira hit na internet. João se vê finalmente admirado, respeitado e seguro. Mas tudo tem seu preço e João vai aprender qual o peso que suas escolhas podem ter não só sobre sua vida, mas sobre as vidas de todos ao seu redor.





Hey, pessoas usuárias de internet! Hoje venho falar sobre esse livro do conhecidíssimo Danilo do Cabine Literária que comprei na Bienal ano passado E CONSEGUI AUTÓGRAFO DELE E DA LÚCIA, MUARARA. ~voltando a forma quase humana~ Continue lendo enquanto tento vocês a descobrir Por que Indiana, João? (Mesmo que seu nome não seja João, isso não vem ao caso).


Se minha voz tivesse mesmo força igual à imensa dor que sinto, meu grito provavelmente ia acordar toda cidade”.

O livro trata sobre bullyingo poder da internet nos dias atuais (não soa brega assim no livro, prometo) e relacionamentos em geral. Tudo começa com João, o típico menino franzino que possui a vida dividida da seguinte maneira: de um lado há seus pais divorciados e que não lhe dão muita atenção. Do outro há o Ensino Médio, aonde já está totalmente familiarizado com colegas o atormentando, mas claro que isso não torna as coisas mais fáceis, pois sofrer bullying nunca é fácil, não importa a quanto tempo você passe por isso. E ainda nessa área, encontramos Guilherme, o principal vilão da vida de João (hahaha rimou hahaha), aquele mesmo clichê de menino valentão, bombado, com sua "gangue do perigo" e que namora a menina que João também gosta. E ainda há a sua vida online, onde ele pode ser quem realmente é e jogar vídeo game com amigos. Adicione um cenário que se passa em Minas Gerais e ai está a veia principal do livro.


Por que eu tenho que ser tão diferente? Eu queria ter os mesmos assuntos e as mesmas opiniões que todo mundo, mas eu não consigo”.

Muito bem, a vida seguia da mesma forma que sempre tem sido para João. Apanhar e ser desprezado na escola, além de ter de conviver com zero esperança de melhorar de situação, já que a coordenação da escola não faz nada a respeito. Aguentar a implicância dos pais separados, tanto em relação a ele quanto um ao outro. E ter como único consolo a maravilhosa internet. Bem, um dia a gota d'água pinga e durante mais um ritual de tortura de Guilherme, João o chuta bem naquele lugar em que não bate sol, movido por uma fúria que nunca tinha deixado extravasar dessa forma antes. O que ele não esperava era que um de seus amigos filmasse tudo e postasse no YouTube sem seu consentimento. E já que a sorte nem sempre ou quase nunca está a nosso favor, o vídeo viralizou e o João logo virou uma espécie de semi-celebridade, sendo chamado para entrevistas e etc. Muitas coisas acontecem a partir dai e João agora tem em mãos a chance de alertar o mundo sobre o que o bullying é, além de poder mudar o rumo trágico que é sua própria história. Mas toda ação possui uma consequência (ou várias, estamos na vida real e não em física), e João percebe duas coisas: 1° erradicar o bullying não será tão fácil quanto deveria ser e 2° a partir do momento em que você consegue uma vida, por assim dizer, você tem de lidar com os problemas que ela traz.


Quero me encontrar, mas não sei se consigo nem se posso. Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim para sempre”.


Vamos lá. (Com lá quero dizer "continue lendo aqui). A história se inicia nos apresentando o clichê do clichê em relação a livros Young Adult que retratam sobre o bullying. Sem problemas, desde que o desenvolvimento deste convença de que o livro conseguiu ser mais que o esperado, e esse não foi totalmente o caso e explicarei o porquê.
No início, João nos conta certos acontecimentos pelos quais passou que deixa qualquer um que se põe no lugar chocado. Ele te faz sentir o circo de horrores que deve ser viver na pele de uma pessoa que possui tais marcas passadas e tem de espetá-las mais um pouco todo santo dia. E eu tive grande interesse em acompanhar o desenvolvimento do personagem, mas infelizmente, foi nesse ponto que o autor se embaralhou um pouco, o da construção de camadas dos personagens.


Ainda não sou adulto, mas sinto que preciso testar o mundo, testar os meus limites, me arriscar. Sim, hoje é um bom dia”.

Sim, o livro é curto, mas não é desculpa para os personagens terem sido todos planos. 
Há aqueles, como o valentão Guilherme, que despertaram meu interesse em querer saber mais sobre como suas mentes funcionavam, mas foi uma vontade frustada. Meus maior exemplo disso é em relação aos pais de João. Esse conflito familiar poderia ter sido bem mais explorado, porém, mal temos um final satisfatório. Tive a sensação que esse "problema" citar brevemente que João passava por problemas familiares. Mas concluindo  só foi criado para lista de desgraças na vida de João serem maiores. 


Eu sei como é quando tudo o que as pessoas conseguem ver são os seus defeitos, e eu não quero ser uma dessas pessoas”.

O autor dá uma pincelada em outros assuntos que seriam interessantíssimos vê-los abordados mais profundamente. Por exemplo, a influência que a mídia exerce hoje em dia em nossas vidas. Quando publicamos algo, muitas vezes não fazemos ideia sobre quem pode ter acesso àquilo e que estará permanentemente navegando por ai. E o autor poderia ter pesado mais sobre isso no livro, o que ajudaria muito no quesito "inovação que salva o livro do início clichê". 




Quando estou pensando nela, afasto todos os pensamentos ruins, com certeza de que depois eles voltam. Mesmo depois de tudo que aconteceu, continuo com um forte sentimentos de inferioridade, porque eu sinto que todos querem que eu seja algo diferente de mim mesmo”.

AGORA, vamos aquilo que salvou a nota do livro. A forma que a escola tratava os casos de bullying da escola, nula, assim como as cenas de descrições de agressão, é uma verdade bem incômoda e exatamente por isso não devemos apenas engolir. A escrita é, no minimo, a escudo da salvação. O Danilo escreve de forma fluída, usando um vocabulário extremamente urbano e isso faz seus olhos passaram pela história de forma rápida. E enquanto eu lia, eu SÓ conseguia imaginar a voz do Danilo narrando tudo e para mim, ele era o João e ponto final. 
Comparo essa leitura como um pulo na piscina em um dia quente: você salta, se refresca (que é o principal) e logo sai para fazer algo melhor. Rápido, simples e cumprirá a função se for isto que você está procurando. Um livro para sair da ressaca e não exige grandes esforços, talvez um estômago não tão mole. Apenas saiba aonde você está embarcando para não se decepcionar.


Acho que quando é para duas pessoas de darem bem, elas simplesmente se dão bem, sem nenhum esforço sobrenatural”.

AH SIM, AFINAL, POR QUE INDIANA, JOÃO? No momento em que o motivo do título é revelado, eu fiquei com o sentimento de "Hm, é isso?". Sim, faz sentido e é engraçadinho, mas again, não crie expectativas, porque não é nenhum acontecimento de parar o coração. 


Acho que uma parte de mim gostaria de voltar a ser do tipo que se esconde atrás de uma pilastra, mas não dá para ajudar alguém isolado no meu canto. Por isso, sei que é uma coisa boa, a certeza de que nunca vou me esquecer do Victor. Agora ele faz parte de mim e de cada pessoa que conhece a sua história. Quando fecho os olhos, quase posso ouvi-lo dizendo que algumas passagens são só de ida.”.

Três interrogações, porque minha primeira ideia de nota entregaria o segredo do título e prometi que permaneceria boazinha pelo menos esse começo de ano. (cof). Como mencionado, a escrita salvou essa nota, mas quero que vocês leiam sim e tirem suas próprias conclusões. 




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domingo, 23 de novembro de 2014

Livros Entre Linhas: Cidades de Papel


Nome do Mundo: Cidades de Papel.
Único em Seu Universo.
Dimensão: 368 páginas. 
Criador: John Green.
Data de Nascimento: 
BRA:  2013 / US: 2008
Trouxe aos Terráqueos Brasileiros: Intrínseca
Onde Obter: Saraiva - Submarino - Livraria Cultura - Americanas - Amazon PDF
Relatório Completo: Skoob. 
Sinopse: Quentin Jacobsen nutre uma paixão platônica pela vizinha e colega de escola Margo Roth Spiegelman desde a infância. Naquela época eles brincavam juntos e andavam de bicicleta pelo bairro, mas hoje ela é uma garota linda e popular na escola e ele é só mais um dos nerds de sua turma. Certa noite, Margo invade a vida de Quentin pela janela de seu quarto, com a cara pintada e vestida de ninja, convocando-o a fazer parte de um engenhoso plano de vingança. E ele, é claro, aceita. Assim que a noite de aventuras acaba e um novo dia se inicia, Q vai para a escola, esperançoso de que tudo mude depois daquela madrugada e ela decida se aproximar dele. No entanto, ela não aparece naquele dia, nem no outro, nem no seguinte. Quando descobre que o paradeiro dela é agora um mistério, Quentin logo encontra pistas deixadas por ela e começa a segui-las. Impelido em direção a um caminho tortuoso, quanto mais Q se aproxima de Margo, mais se distancia da imagem da garota que ele pensava que conhecia.



Heeeeeeeey! Sim, eu sei que dei um novo significado para palavra "sumiço", mas aqui estou eu, ignorando a loucura da escola momentaneamente só para desfrutar da magia de escrever que me foi privada durante esse tempo todo. Oh dó.



Margo sempre adorou um mistério. E, com tudo o que aconteceu depois, nunca consegui deixar de pensar que ela talvez gostasse tanto de mistérios que acabou por se tornar um”. 

Provavelmente vocês já estão cansados de ver resenhas dos livros do Green por ai. Yeah, eu também. Mas eu queria deixar registrados meus pensamentos sobre esse livro, pois foram tão extremos a tal ponto que ainda não sei se minha opinião sobre é mais para positiva ou negativa, ops.

Isso sempre me pareceu tão ridículo, que as pessoas pudessem querer ficar com alguém só por causa da beleza. É como escolher o cereal de manhã pela cor, e não pelo sabor”

Começando por Quentin. Primeiramente, QUE RAIO DE DIABOS DE NOME É ESSE?? Criatividade foi lá no Polo Norte, hein Sr.Verde! Enfim, Quentin está nas suas últimas semanas de aula do Ensino Médio, o desejo mais ansiado ou temido. Ou uma mistura de ambos. Porém, Quentin não demonstra sentimentos significativos quanto a isso. Sua atenção está, assim como esteve desde a infância, em Margo Roth Spielgelman, sua misteriosa vizinha de muitos anos, possuidora de um ar de superioridade naturalmente intrínseco e aquela por quem Quentin mantém uma paixão desde que se conheceram. Já aviso que essa paixonite me enjoou desde o começo.

Sempre achei que só pessoas importantes tinham inimigos. Por exemplo: historicamente, a Alemanha tem mais inimigos que Luxemburgo. Margo Roth Spielgelman era a Alemanha. E a Inglaterra. E os EUA. E a Rússia czarista. Eu, eu era Luxemburgo. Só na minha, criando minhas ovelhas e cantando à tirolesa”.



Certo, tudo seguia relativamente bem em sua vida. Quentin possuiu uma particularidade de gostar do tédio e não se incomodar com ele. Gostar de ter os pés no chão e um futuro previamente traçado à sua frente. Até que certa noite, Margo aparece na janela de seu quarto, vestida e pintada de preto, convidando-o para uma operação/missão misteriosa, mas com a garantia de ser a noite mais emocionante de sua pacata vida. Pausa para reflexão: vocês acham que Quentin diria não a uma aventura com a Sra. Spielgelman? Cof, NEVER, cof.

Fazer as coisas nunca é tão bom quanto imaginá-las”.

Eis que a operação/missão misteriosa se mostrou ser um plano de vingança muito bem planejado contra o namorado traidor de Margo. E apesar das cenas engraçadíssimas, esse momento juntos serviu para pôr em dia anos as reflexões e conversas que estavam há anos atrasadas. Margo descreve sua forma de ver a cidade em que vive, (o mundo em geral), e tudo que nela habita: feita de papel. As pessoas e suas preocupações banais, casas com fachadas lindas por fora, mas com famílias destruídas por dentro... Enfim, livros do João Verde e suas filosofias peculiares.
Porém, contudo, entretanto, a aparente ascensão de Margo na vida de Quentin revela seu objetivo dias depois: foi uma despedida.

Olhe para todas aquelas ruas sem saída, aquelas ruas que dão a volta em si mesmas, todas aquelas casas construídas para virem abaixo. Todas aquelas pessoas de papel vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas. Todas as crianças de papel bebendo a cerveja que algum vagabundo comprou para elas na loja de papel da esquina. Todos idiotizados com a obsessão por possuir coisas. Todas as coisas finas e frágeis como papel. E todas as pessoas também.

Margo possuía o hábito de fugir de vez em quando, a tal ponto que seus pais já nem se importavam mais. Contudo, Quentin precedia que desta vez seria definitivo. Margo Roth Spielgelman deixaria para trás a cidade de papel junto com a vida de papel que achava levar.

- Quanto mais trabalho, mais percebo que os seres humanos carecem de bons espelhos. É muito difícil para qualquer um mostrar a nós como somos de fato, e é muito difícil para nós mostrarmos aos outros o que sentimos”.

Quentin, junto com alguns amigos, decide procurá-la. Ele sabia que uma das características de Margo era deixar pistas misteriosas e aleatórias sobre seu destino. E desta vez, sente que elas foram deixadas para ele. É então que a vida do nosso protagonista se resume a constantes tentativas de entender Margo. De conseguir ser Margo e sentir suas dores para encontrar o lugar em que foi procurar uma cura. Mesmo que para isso tenha de arruinar seu histórico de poucas faltas, sua festa de formatura e até, quem sabe, algumas amizades de muitos anos.

Eu não pude deixar de pensar no fim das aulas de tudo o mais. Gostava de ficar afastado, observando-os – era um tipo de tristeza que não me incomodava, e assim eu só ouviam deixando toda felicidade e toda tristeza daquele redemoinho de términos me dominarem, cada sentimento fazendo o outro ficar mais forte. Por um longo tempo, foi como se meu peito estivesse se abrindo, mas era não exatamente desagradável”. 

Pois bem, neste livro John-Greeniano somos apresentados a diversas passagens que evocam vários sentimentos e pensamentos que temos e muitas vezes, achamos que só habitam em nós. Quem nunca parou para pensar sobre quão verdadeira é a vida que você tem vivido? Ou quem nunca analisou se o "eu" que você mostra para as pessoas, principalmente as mais próximas, corresponde a pessoa que se denomina pelo seu nome e eu não sei mais se isso é uma pergunta ou afirmação. Ignorando isso, esta reflexão deveria ser algo comum.

A cidade era de papel, mas as memórias, não.

Analisando os personagens, 99% são tradicionais e clichês até para um livro clichê de Young Adult. O protagonista obcecado pela melhor amiga de infância. Um melhor amigo nerd. O outro melhor amigo retardado e que só pensa em garotas. A amiga bitch da ex-melhor amiga do protagonista. E por um motivo estrondoso, todos eles se juntam e viram amigos em nome de algo maior, que é achar a melhor amiga do protagonista. E está ai o livro. E não acho que eles passaram por um amadurecimento significativo ao longo do livro. Sim, eles aprenderam e viveram muitas coisas. Mas o livro não os fornece muito tempo para sintetizarmos isso. (Sim, agora somos plantas). E tenho de falar: a Margo entrou na lista para personagens mais inúteis e irritantes de todos os tempos. Além de alienar a mente do Quentin, ao invés de mudar as pessoas com quem se relaciona ou rever o próprio comportamento, ela prefere chamar todos de frívolos, (claro, de forma metafórica), e sair da cidade como se nada daquilo pudesse oferecer o que ela gostaria. Primeira observação: Querida Margo, o mundo não é uma fábrica de realizações de desejos; Segunda observação: Você é tão "vazia" quanto qualquer um, talvez até mais por rotular a cidade como de papel, quando na verdade você nunca tentou melhorar a vida. Sim, me sinto melhor agora, obrigada.

São tantas pessoas. É tão fácil se esquecer de como o mundo é cheio de pessoas, lotado, e cada uma delas e imaginável e sistematicamente mal interpretada”.

Sim sim, eu sei que a resenha pode parecer sem foco. Mas é como eu disse, eu ainda não sei totalmente o que eu sinto por esse livro. E não sei se algum dia saberei. A síntese dele não é nem um pouco meu estilo de livro. Mas o jeito como o autor conduziu tudo isso, a linha que uniu o esqueleto-mais-do-que-clichê com as reflexões, fez com que a essência do livro seja mais uma história de término de ensino médio. A mensagem que o autor quis transmitir é incrível. Apenas acho que ele poderia ter usado de um meio mais interessante. Porém, sem ressalvas quanto a escrita. Green prova-se mais uma vez uma fábrica de diálogos inteligentes e fabricador de personagens que GOSTAM do conhecimento e que fazem piadas com o mesmo. Sua escrita é leve, nem um pouco rebuscada ou por demasiada descritiva. Eu adoro o modo singular de sua escrita, como se levasse às palavras para passear.

Só tenha em mente que às vezes o jeito como a gente pensa em alguém não é exatamente o jeito como essa pessoa é”. 

AGORA, VAMOS FALAR DAQUELE FINAL. Acredito que o Green tenha ficado em um impasse gigantesco, pois apenas com a sinopse é possível deduzir muitas coisas do desfecho. Creio que sua intenção era surpreender a todos que seguiram a hipótese mais óbvia. Porém, o resultado se resume em catástrofe. Grande quantidade de pontas soltas, questões não resolvidas e personagens esquecidos. Sr. Green, continue matando personagens que amamos que fica mais legal. E outro detalhe, há alguns trechos de insinuações sobre metáforas para se seguir e outras coisas que me fez ver um certo padrão de temas que o Green aborda. (Cof, fetiche por crises existenciais, cof).

Well, folks, para nota final, PAPÉIS! Criatividade é tudo nessa vida. Quatro papéis, pois mesmo tentando ignorar implicâncias pessoais, aquele final superou/arruinou tudo. Espero que tenham gostado e se preparem, pois logo voltaremos à ativa! AH SIM, acompanhe um pouco das filmagens no canal dos Nerdfighters!




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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Livros Entre Linhas: Todo Dia



Nome do Mundo: Todo Dia or Everyday.
Único em Seu Universo.
Dimensão: 280 páginas. 
Criador: David Levithan.
Data de Nascimento: 
BRA: 2013 / US: 2012
Trouxe aos Terráqueos Brasileiros: Galera Record.
Onde Obter: Saraiva - Submarino - Livraria Cultura - AmericanasPDF
Relatório Completo: Skoob
Sinopse: Neste novo romance, David Levithan leva a criatividade a outro patamar. Seu protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.


Você também está cansado das costumeiras fórmulas para livros contemporâneos e Young Adult? Bem vindo ao meu clube. Já virou uma questão de subestimação o modo como a maioria desses livros se desenrolam. “Se não gosta, então não leia, oras”. Sim, eu concordo. Mas o problema é que eu ainda encontro livros inovadores dessa categoria e que valem a pena. Do tipo que não recorre ao mesmo método e usa frases como “Os incomodados que se mudem”, em defesa à falta de criatividade. Desculpe, mas eu não gosto de ser acomodada. Livros foram feitos para incomodar, principalmente nos pontos fracos. E Todo Dia foi surpreendentemente esse tipo de livro.



“Depois de um tempo é preciso aceitar o fato de que você simplesmente existe. Não há meio de saber o porquê. Você pode ter algumas teorias, mas nunca haverá uma prova”.


O livro é narrado por “A”, (sim, isso é um nome e ainda demorou para descobrirmos!), uma pessoa que não é exatamente uma “pessoa” no sentido físico, no qual estamos habituados a pensar. “A” é apenas uma consciência, como se fosse formado apenas pela sua capacidade cerebral de raciocinar e de alguma forma, existir. Mas não é dono de nenhum cérebro ou corpo. E foi assim desde que ele nasceu. (Está parecendo papo de quem comer flor-de-lótus :v)


“Aprendi a observar, muito melhor do que a maioria das pessoas faz. O passado não me ofusca, nem o futuro de motiva. Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver”.

Todo dia, “A” acorda no corpo de uma pessoa diferente, sem nunca voltar ao mesmo hospedeiro. E cada novo capítulo significa uma nova manhã, uma nova vida para aprender a lidar, um novo corpo para cuidar. Acesso a lembranças de passados diferentes e planos de futuros que nunca poderá possuir ou planejar. Pois para “A”, o amanhã não existe. Não no sentido convencional. Não quando a palavra “incerto” adquire uma âncora de significado.



“O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si – tudo isso se reorganizando para que essa interseção precisa e incomum possa acontecer. Em seu coração, em seus ossos, por mais bobo que saiba que é, você sente que tudo levou a isso, que todas as flechas secretas estavam apontando para este lugar, que o universo e o próprio tempo construíram isso muito tempo atrás, e agora você acaba de perceber que chegou ao local onde sempre deveria ter estado”.


Okay, espero ter conseguido retratar uma parte do que é ser o “A”. Ah sim, “A” não possui sexo definido, ele/ela apenas sabe que atualmente tem 16 anos e todos os corpos que habitará possuem a sua idade. Ou seja, quando ele tinha 5 anos, apenas se hospedava em crianças de 5 anos. “A” também não controla essa mudança de corpos. Ele/ela apenas sabe que à meia noite, queria ou não, irá para um ser humano diferente. Enquanto está dentro do corpo das pessoas, ele continua sendo quem é, e possui o livre arbítrio de seguir as ações costumeiras do hospedeiro ou ser quem quiser ser. (Ela/ela, enfim, vocês entenderam. Vou chamar de “ele” para facilitar a vida).



“Sinto que o universo está me dizendo alguma coisa. E não importa se é verdade ou não. O que importa é que eu sinto isso, e acredito”.

Certo, chega de apresentações. Desde o começo do livro, “A” deixa claro que é o que é, mesmo que ele próprio não saiba a resposta. Mas o autor soube nos situar bem sem termos que “pegar o ônibus andando”.



“Posso dizer que a tristeza voltou. E não é uma tristeza bonita; a tristeza bonita é um mito. A tristeza transforma as feições em argila, não em porcelana”.

No primeiro capítulo, “A” acorda no corpo de Justin, um garoto que não dá muita importância para nada, inclusive à sua namorada, Rhiannon. Depois algum tempo, “A” criou um “protocolo de regras” para não prejudicar seus hospedeiros, tentando agir exatamente como eles o fariam e sem se envolver com as pessoas ao redor, já que tudo aquilo só duraria 24h. Já que nunca possuiria uma identidade ou realidade para si. Mas perto de Rhiannon, por algum motivo, ele decidiu fugir de suas regras. Por um dia. Um dia que, ao final, ele desejou que nunca terminasse. Sim, alerta perigo.



“Já não acho que ela só esteja sendo gentil. Ela está sendo boa. O que é mais um sinal de caráter do que a mera gentileza. A bondade tem a ver com quem você é, enquanto a gentileza tem a ver com o modo como quer ser visto”.

Claro que no dia seguinte, “A” não era mais Justin. Nunca mais seria. Mas os momentos que passou com Rhiannon deixaram marcas. 
A necessidade de ser alguém era um desejo que ele achara ter superado.  De conquistar coisas por si só. De ter uma vida. Uma única vida. De ser a mesma pessoa mesmo depois da meia noite. (Perceberam que eu nem gosto de frases curtas? #ficaadica).

“Simples e complicado, como a maior parte das coisas verdadeiras”.

A cada dia, “A” quebra cada vez mais suas regras de não envolver os hóspedes em algo que não diz respeito às próprias vidas. Mas ele tinha que ver Rhiannon. Mesmo que Rhiannon não fizesse ideia que dentro de todos os corpos que conheceu, havia a existência peculiar de “A”. Como “A” conseguiria explicar qualquer coisa relacionada a ele para Rhiannon? E pior, que estava apaixonado?



“Apaixonar-se por alguém não significa que você saiba como a pessoa se sente. Significa apenas que você sabe como você se sente”.



Well well, sei que a trama já trouxe a tona “exclusividades YA”. Mas se eu consegui me esforçar para ver além disso, come on!, você também. Eu gostei da ideia central do autor. Ele foi inteligente de entrelaçar suas críticas sobre padrões da sociedade num livro de cenário destinado a adolescentes. Ao mesmo tempo que deixou uma impressão de estar limitando-se, mas enfim. Por “A” não possuir um sexo definido, o autor explora bastante sobre questões homofóbicas, tanto para o lado gay quanto para o lésbico, ao mesmo tempo em que ele não prioriza isso.  Ele não defende nenhum dos lados, não faz campanha contra ou a favor. Apenas mostra casais. 


“É somente nos pontos mais delicados que fica complicado e controverso, a incapacidade de perceber que, não importa qual seja nossa religião, sexo, raça, ou localização geográfica, todos nós temos cerca de 98% em comum com todos os outros. Sim, as diferenças entre homens e mulheres são biológicas, mas se você observa a biologia como uma mera questão de porcentagem, não há muita coisa diferente. A raça é diferente apenas como uma construção social, e não como uma diferente inerente. E quanto à religião, quer você acredite em Deus, Javé, Alá ou qualquer outra coisa, é provável que, em seu coração vocês queiram a mesma coisa. Por uma razão qualquer, nós nos concentramos nos 2% da diferença, e a maior parte dos conflitos que acontece no mundo é conseqüência disso”.

Claro que “A” às vezes estava em um corpo de alguém que namorava, e com isso temos a oportunidade de conhecer todos os tipos de casal. E o autor foi além. Ele mostra as personalidades das pessoas que os formavam, definido-as pelo que elas são e não pela opção sexual ou pelo preconceito que sofrem por isso. (Eu sou bem anti-romântica, não gosto de livros melosos que me façam sentir com diabetes literária. Mas a forma que o autor tratou de “assuntos de relacionamentos”, com simplicidade e sem alardes, não me cansaram. E isso é raro).


“Mas aposto que tem um monte de gente que passa a vida inteira sem dizer a verdade. E essas pessoas acordam no mesmo corpo e na mesma vida todas as manhãs”.

Acalma-se você que começou a pensar que o livro só trata “do sentimento entre duas pessoas”. Por sorte não, pois se não eu já teria vomitado e deixado claro que fiz isso. Os assuntos mostrados atrás da ótica de “A” são bem diversificados e posso dizer que expostos de maneira levemente neutra, pois ele não possui preconceitos em relação a nada. Ele já esteve em pessoas que preferem o silêncio. Pessoas que gostam de festas. Pessoas estudiosas. Pessoas ignorantes. Ele já sofreu bullying. Já esteve no corpo de valentões. Pessoas suicidas. Pessoas com problemas alimentares. ENFIM, toda uma nuança de opiniões, personalidades, traumas, experiências e diversificações. 



“Sei por experiência própria que, sob toda garota desimportante, existe uma verdade fundamental. Ela esconde a dela, mas ao mesmo tempo, quer que eu a veja”.

Ele nos mostra que de alguma forma, todos às vezes pensam as mesmas coisas, mas de maneiras diferentes. Todos possuem a mesma coletânea de sentimentos. Todos querem ser felizes e amados, mesmo que alguns gritem isso ao mundo e outros escondam e finjam que não. Todos sentem tristeza, todos têm dias difíceis. Todos se preocupam ou já se preocuparam com aparências ou opiniões alheias. Há apenas inúmeras maneiras de uma pessoa passar por isso, compartilhar, esquecer ou guardar as experiências que vive. (Okay, essa é a parte em que sinto que viajei demais e não lembro mais do que especificamente estava falando ou tentando chegar = "apenas sorriem e acenem, rapazes.")


“O som das palavras quando são ditas é sempre diferente do som que fazem ao serem ouvidas, porque o falante ouve parte do som do lado de dentro”.

O final do livro não foi uma surpresa para mim. Mas eu passei boa parte da história sentindo uma grande curiosidade sobre aonde tudo aquilo iria chegar. Não que tenha sido satisfatório, mas acho que foi um bom encerramento. E o fato de ser livro único mostra que devemos deixar como está e se quisermos, podemos acrescentar uma reticências na nossa mente.



“Ela está tentando sobreviver ao dia, e não é uma tarefa difícil”.

Como já devo ter mencionado, ou não :x, que a escrita do autor é ótima. Ele consegue literalmente PÔR sensações em palavras e pensamentos que você achava ser o único a tê-los em frases que resumem tudo de maneiras concisa e abrangente. Ele faz os personagens se desenvolverem de maneira natural e você sente o progresso. Espero ler mais Levithan, pois seu ritmo de escrita é tão sem adjetivos que eu esquecia que estava lendo um livro! Como eu li em formato de ebook, comentários sobre a diagramação estão dispensados.



“Raramente as pessoas são tão atraentes quanto são aos olhos das pessoas que as amam”.


Quatro A’s como nota! (Isso no boletim também é bem vindo). Mesmo não sendo O livro relação, foi bom passar um tempo com ele e aprender a cultivar as lições que ensina.




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